DA FUSÃO DO AMOR ETERNO

   Era como se o mundo todo não existisse enquanto só havia o entrelaçar daquelas pequenas mãos. Tão apertado sob aquele instinto primitivo, nada escapava, nem mesmo o suor contido daquelas palmas.

   E era nesse contexto que, por vezes, berros soavam caso houvesse algum deslize vosso quanto ao caminho delineado, pois não podia perder-vos.

   Primeiro, porque não se perde a cabeça e o coração em lugar qualquer, porquanto são extensão de mim mesmo e falhar-me-ia a vida se me os amputassem. E segundo, porque não ousaria ter de justificar qualquer perda aos olhos superiores, pois como poderia eu explicar-lhes que não tive atenção quando, Pai e Mãe vazios sem seus filhos desbravavam terras além-mar, a responsabilidade doridamente tinham delegado e que a mim fora subdelegada em determinadas circunstâncias? 

   O meu dever era ser, sobretudo, intransigentemente cuidadoso em cada passo e em cada direção. Capitão, autoritário, como a vovó dizia quando por vezes excedia-me.

   Lembro-me que o J.P era o mais tinhoso e rebelde, e, portanto, apesar de haver recebido instruções precisas do tipo - Obedece o teu irmão - tinha uma certa obstinação em contrariar-me, fazendo-me perder as estribeiras muito frequentemente.

   A Nana, alheia ao que se passava ao redor, tão envolvida num mundo que era só dela, ouvia atentamente e executaria até um simples suspiro se tal lhe fosse solicitado por mim. 

   Gabe, o caçula, filho que não saiu de mim porém sempre tão meu pequenino, ainda haveria de ser a obra-prima, o meu eu melhor fora de mim.

   Mas a vida, que sorri inocentemente para a inocência de planos e trajetos planeados, felizmente, em nada colaborou para que eu mantivesse tal pose.

 

   Assim, crescemos como objecto de nós próprios, seguindo o próprio desígnio/mas fundidos de alguma forma. 

    É por isso que, ainda hoje, se dói em vós, dói em mim. Se vos magoam, a mim me dilaceram.

   O que quero dizer por estas palavras é que talvez me tenha apercebido de que nunca foi sobre apertar as vossas mãos. Mas contemplá-las ao longe, livres, sem nunca as largar.

   E embora possa parecer que o inverno tenha chegado por aqui e congelado a paisagem, saibam que eu sinto muito, tanto, tudo!

   Pois ainda que eu me falte no fim, jamais se esqueçam de que foi, é, e sempre será, infindável Amor, até o meu último suspiro.


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